Geopolitics

A República Europeia na cena mundial

Quando pensava no mundo multilateral de conferências que outrora estudara, Sofia sabia que as lições do século XX não levariam a Europa longe na competição global tenaz que surgira desde então. Porém, não estava preparada para abdicar de todos os seus ideais, que iria perseguir com zelo realista.

Tbilisi, 9 de Maio de 2049. Euvropi Shakli [Casa da Europa]

Como a cidade mudou…

Sofia Belver-Tamarashvili espreitou de uma janela do amplo gabinete da Casa da Europa. Como todo o país mudara desde que aderira à União Europeia.

Presentemente já não se diz UE. Diz-se “Europa” – desde a Grande Reconstrução de 2033 e do Tratado de Atenas, que corrigiu os erros que se seguiram à crise financeira de 2008. Após quase um século de existência, o projeto europeu amadureceu, cresceu e mudou. Ultrapassou os dias negros da década de vinte do século XXI e a tendência do fascismo de toda uma geração de líderes – jovens, machistas, xenófobos e autoritários. Os muros da sua Fortaleza Europa acabaram por cair, mas a Europa permaneceu de pé.

Sofia é responsável pela sua política externa há dez anos.

Foi nessa qualidade que, nessa mesma manhã, na sua cidade natal, abriu a conferência sobre “Paz e Regeneração no Médio Oriente”, uma região devastada por um conflito relâmpago que durou vários meses em 2047. Milhões de mortos, destruição inimaginável e utilização de armas nucleares táticas, fornecidas de forma cínica e descarada por Washington e Pequim para testarem ao vivo a sua tecnologia militar num teatro de operações aleatório em relação aos seus interesses, desde a transição energética na década de trinta do século XXI que tornara o petróleo obsoleto.

Uma vítima dos danos colaterais, as Nações Unidas – já enfraquecidas pelo pouco destaque dado por Trump e pelos seus sucessores e desacreditadas pela sua própria impotência –, não sobreviveu. Desde 2048, assistimos a manobras da Europa. O único poder ainda impulsionado pelo sentimento de dever de fazer frente aos gigantes egocêntricos, a República Europeia, é finalmente mais do que um mero ator na cena internacional: ela é a cena internacional. Mediadora e líder, a sua missão consiste em tirar os beligerantes da espiral de violência e abrir caminho para a cooperação, apesar da relutância de alguns parceiros.

“O que achas, Adrian?”

“Acho que é altamente provável. Os americanos sabem que fizeram asneira da grande e que terão de assumir grande parte da culpa pela marcha para a guerra. Mesmo indiretamente, são culpados por a única coisa que resta de Riad, Tel Aviv, e Teerão serem enormes crateras. A região foi destruída pelas armas nucleares que de forma complacente forneceram aos seus fantoches e agora têm de partilhar com Pequim três milhões de mortes a pesarem na consciência… Vão começar por fingir que não têm sede, mas acabarão por engolir de uma só vez a poção europeia “SaveOurSouls”. Estamos a salvar-lhes a pele. Kagan pode desfilar como se estivesse em Austerlitz, mas na verdade está em Waterloo. Está só a tentar virar esta trapalhada a seu favor culpando a administração anterior para que as suas expetativas presidenciais não fiquem comprometidas…”

Era obviamente uma pergunta retórica. Mas a linguagem bombástica, com um toque de calão, do seu jovem assessor especial sempre a fizera sorrir. Adrian Veseli, um ambientalista romeno, poliglota e doutorado em estudos de Gandhi, é ainda um diplomata com uma inteligência apurada… e linguagem grosseira, perfeito para os jogos de poder que ainda definem as relações internacionais.

Tal como Emily Kagan, a principal adversária neste jogo de xadrez com vários jogadores. A secretária de Estado americana é uma criatura de poder. Uma beleza agressiva e inteligência manipuladora valeram-lhe o êxito político. O período em que foi secretária da defesa na breve e única administração democrática pós-Trump, em 2036, deixou boas memórias junto das altas patentes. A sua força de vontade e linguagem contundente afastaram os preconceitos da cultura americana machista. Juntamente com Jennifer Rodriguez, a presidente republicana latina ultraconservadora em funções de 2028 a 2036, Emily Kagan mudou certamente o rosto da América pós-Trump, já para não falar no tom. Os seus disparates eram menos vulgares, mas igualmente agressivos e desafiadores em relação aos seus parceiros. Menos idiotice mas mais cinismo.

Adrian permanece cauteloso, mas Sofia não tem dúvidas: Emily Kagan será a próxima presidente dos Estados Unidos. Será uma adversária formidável, um espírito sedutor do antigamente. Tentarão minar as relações de poder brutais e a política estéril que Kagan traz consigo, que sempre impediram a humanidade de ver o planeta como um grande sistema interdependente.

Estas são as relações internacionais que Sofia procura mudar – tanto do ponto de vista do estilo como da substância – tornando o clima, a vida e o ser humano prioridades absolutas. Sejam baleias ou abelhas, florestas ou calotas polares, pessoas pobres ou povos indígenas, cada faceta do diamante que é o planeta Terra merece ação pública – e não pode ser negligenciada. Graças à quarta revolução industrial e à sexta destruição em massa, Sofia está constantemente a ser recordada de que a questão vai muito para lá de uma simples ação corretiva. O que está em questão é uma mudança profunda da nossa visão do mundo – e da economia. “Ao longo de três séculos, o homem ocidental machista colocou em perigo equilíbrios milenares, alimentados por mulheres. É urgente recuperar esses equilíbrios!”, explica com delicadeza.

Não-violência, inclusão, diálogo, acolhimento: imersa nas lições da justiça transacional, grande conhecedora da dupla abordagem política e espiritual do feminismo “sincrético”, antiga académica e historiadora de “movimentos heréticos e dissidência política ao longo dos tempos”, como referido na sua biografia, aos 52 anos Sofia personifica a República Europeia. Georgiana do lado do pai, espanhola do lado da mãe e europeia pelos seus filhos, Sofia era agora o rosto da Europa – e o seu número de telefone, pronto para responder a todos os Kissinger do mundo.

“Sabes, Adrian, responsabilizar os violentos, fazê-los enfrentar as consequências das suas ações, evitar julgamentos moralizadores que colocam o seu ego na defensiva, usar a consciência para os forçar a redimirem-se pelos seus excessos… a nossa abordagem funciona… e Emily Kagan não terá alternativa senão aceitar, sobretudo quando for presidente – apesar do que possa pensar.”

“Sobretudo sob o olhar atento da comunidade global emergente”, concordou ele, pensativo.

Encontrar o equilíbrio entre o incentivo e o castigo, entre o coletivo e o individual, a vários níveis… Converter o planeta em interesse nacional: essa era a grande ambição desta tentativa de mudança ideológica e cultural global. Mas ao captarem imaginações manchadas pelo século das nações, desde os primeiros meses do seu mandato, conseguiram a proeza que cimentaria a sua credibilidade política: salvaram os oceanos concedendo-lhes o estatuto legal de nação. “Num mundo dividido em nações, qual é o único direito que pode travar a ganância voraz de território e recursos que marca a ideologia do Estado-nação? Outra nação.”, explicou à sua equipa. “Uma fronteira para abolir fronteiras. Um Estado que se sobrepõe a todos os outros para destruir o imperialismo”, continuou. “Vamos subverter o direito internacional.”

No seu grande discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2039, afirmou: “Os oceanos são a fonte da vida na Terra. Esta sopa primordial alimentou-nos e permitiu-nos crescer. É mãe e pai de todos nós. É o sítio onde nascemos – a nossa natio universal.”

Depois tudo aconteceu bastante depressa. Os primeiros programas de regeneração, que ajudaram a estimular o renascimento gradual do Mar de Aral e a travar o avanço do Sara; a iniciativa “Semper virens” para proteger e revitalizar a Amazónia, a Indonésia e o Congo; programas alimentares com base na agricultura de pequena escala; uma política de conversão de paraísos fiscais em modelos alternativos de desenvolvimento com base em centros de investigação e bibliotecas universitárias em rede – o programa, acertadamente denominado de “Sofia”, uma das ideias de Adrian – e que a comovera ao ponto de não se conseguir opor. Educação, cultura, natureza, emancipação da mulher, direitos básicos, migração, tecnologias soft, os bens comuns… Todos os programas europeus assentam na mesma receita para a mudança sistemática: cortar com a mentalidade do desenvolvimento linear, capacitar as comunidades locais e repor os equilíbrios naturais perturbados por modelos económicos extrativistas.

A Europa da ministra Belver-Tamarashvili tornara-se na força motriz por trás de uma Nova Ordem Planetária, um farol para as nações que ansiavam por fugir da escuridão das últimas décadas. Alguns analistas chamam-lhe “política externa feminista”. A Foreign Policy publicou recentemente um artigo muito critico a esse respeito, como seria de esperar. Mas do ponto de vista do mundo académico, a doutrina afirma-se.

Sofia olha para os três retratos na parede, retratos expostos em qualquer gabinete oficial da UE em todo o mundo: Simone Veil, Vandana Shiva e Michelle Obama brilham, conquistando o seu sorriso de volta. Três vidas, três carreiras, três inspirações.

Sobretudo Michelle Obama, que falhou duas vezes a corrida presidencial. Não por ser mulher ou por ser negra. Mas sim porque a sua mensagem de firmeza suave e equilibrada contrastava demasiado com a cultura de força tão enraizada na política americana. Demasiado matizada, demasiado inclusiva, demasiado Vénus e não suficientemente Marte?

Seria a emergência desta política externa alternativa só mesmo possível na Europa? Sabia que dois fenómenos em particular tinham contribuído para este desenvolvimento.

Em primeiro lugar, a experiência da “Nova Era do Homem”. Esta década de histeria reacionária masculinista cultural e política teve fortes repercussões. E em meados da década de 30 deste século, o movimento Basta tinha-se sobreposto a tudo o que o antecedera, colocando no poder uma nova geração de feministas que amadureceu à sombra de um domínio masculino que era tão exagerado quanto ridículo. Uma intelectual envolvida na política, que gozara de destaque na comunicação social desde o final da década de 20 deste século, Sofia Belver-Tamarashvili era uma das figuras de destaque desta revolução cultural tranquila.

Mas acima de tudo, Sofia não é ingénua. Sabe que as suas palavras e os seus atos beneficiam do acumular de poder militar e económico na UE ao longo das décadas, bem como do maior peso que daí resulta para o bloco na cena internacional. Sabe que, desde 2028, a UE construiu uma capacidade militar independente para sustentar a sua diplomacia. Sabe que o euro está agora no centro do sistema monetário internacional depois da grande crise do dólar no final do segundo mandato de Trump, o que facilita o financiamento de programas mais dispendiosos – e por vezes, uma pressão subtil para conseguir o que se quer, tal como aconteceu no final de 2036 para refrear as ambições territoriais de Pequim no Mar do Sul da China.

Sabe que a força bruta não desapareceu. E usa-a. “Subverter a força para a tornar desnecessária. Converter a flexibilidade e a moderação em sinais de força.” Mais do que um mote: uma filosofia prática.

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